Posts tagged Sociologia
Capitalismo à Brasileira I
Aug 3rd
BNDES entra na Springs/CoteminasEm meio à turbulência dos mercados, a Springs Global Participações, do vice-presidente José Alencar, decidiu promover uma oferta pública de ações. Vai levantar 600 milhões de reais. Até aí, beleza. O processo está inclusive registrado na CVM. A novidade: a empresa terá a ajuda do governo, via BNDES.
A Springs Global Participações é um gigante lucrativo e globalizado. Trata-se da holding que detém o controle da Coteminas, maior indústria têxtil do Brasil. E é dona também da Springs, a maior fabricante de produtos de cama e mesa dos EUA. A decisão de fazer a oferta pública foi de Josué Christiano Gomes da Silva, filho de Alencar e executivo número 1 da Springs/Coteminas. O Credit Suisse está liderando a operação.
Mas o negócio não saiu fácil. Só conseguiu ser concretizado depois que o Credit Suisse convenceu o BNDES a comprar quase 150 milhões de reais em papéis da empresa. Quem conhece o mercado acredita que estes 25% da operação comprados pelo BNDES terão que ficar encarteirados nos cofres públicos por um bom tempo.
A lista de compradores também incluiu um fundo estrangeiro. O negócio está para ser anunciado oficialmente nos próximos dias.
Essa é uma das características do capitalismo brasileiro: os negócios de peso sempre tem o dedo do governo, não como fomentador, mas como tomador do risco. É o mesmo conceito da Lei Rouanet, que dá R$ 1 milhão para uma cantora meia-boca, voltada para um público abonado (Vanessa da Mata) gravar um DVD.
O lucro é deles, o prejuízo é nosso.
O problema da agenda da Esquerda
Jun 29th
A esquerda é, hoje em dia, essa coisa frívola. Não pensa mais em termos de luta de classes — o que não quer dizer que seja, por isso, menos nefasta. Não é. A miséria é sua clientela. Vejam lá. As ONGs sobem o morro, mas não para fazer proselitismo, para “libertar” os oprimidos. Isso dá trabalho e não rende dinheiro. Fazem convênios com associações culturais ou de moradores as mais suspeitas para ensinar aos meninos dança, funk, malabares sei lá o quê. As pessoas são estimuladas a desenvolver a cultura da miséria.A regra é o conformismo. Um tanto grosseiramente, diria que um liberal estimularia o pobre a deixar de ser pobre. Como? Oferecendo-lhe as bases estruturais mínimas para isso: uma escola decente, por exemplo. A esquerda tradicional procuraria organizar a favela, no limite utópico, para o dia do levante; enquanto ele não chega, para desmoralizar o poder burguês. Essa nova esquerda do miolo mole é um tanto diferente: ela luta para que os “valores!” gerados na pobreza sejam uma alternativa à cultura dominante. Vejam o caso dos bailes funk. Cada barraco do Rio sabe que eles são o meio mais eficaz de aliciamento dos jovens para o narcotráfico, que os promove. Tim Lopes morreu investigando o caso. Não obstante, os “intelectuais” dessa “cultura” estão na TV, exercitando a sua glossolalia. Outro dia, um Schopenhauer do pedaço disse na Universidade de Brasília — vi na TV Câmara — que a sua turma de “artistas” não condena o traficante, mas o tráfico. Entendi.
O que me parece mais incrível é que boa parte dessas ONGs realmente vivem de manter a miséria em padrões ditos tolerantes. Alguém conhece algum caso em que um trabalho de ONG numa favela carioca tenha dado resultados que não tivessem sido mais tráfico de drogas, mais violência e mais miséria? Simples: nenhuma delas trabalha com metas que incluam o Estado. Nada do Estado reocupando o espaço público. A comunidade deve se auto-gerir (lógico, sob o jugo das armas dos traficantes), deve-se negociar com traficantes para se ter acesso ao local… Abre-se mão de tudo, para se obter nada como retorno, só um coraçãozinho mais tranquilo e um pouco de grana na ONG.
Como se forma a opinião?
Jun 1st
Os efeitos desse conhecimento são importantes para se compreender como certas “verdades” se estabelecem com facilidade, simplesmente por serem repetidas por algumas pessoas como se não houvessem interesses próprios em jogo. Um dos meus discursos favoritos é o da tal “economia”. É um tal de “a economia vai bem” pra cá, “o mercado está contente” para lá, como se fosse uma entidade externa, quase totalmente representativa do todo. Basta com que meia dúzia de luminares (tipo Delfim Netto e Mailson da Nóbrega, cujas obras falam por si próprias) repitam esse mantra na rádio e pronto: está formada a opinião geral da nação. Cabe lembrar que o Brasil é o único país que conheço onde mercado significa bancos, e não mercado de consumo. E economia significa taxa de juros e não uma forma de se buscar o bem-estar da população como um todo. Um resumo do artigo original, que nada tem a ver com o que comentei nesse parágrafo, se encontra aqui.
A volta do patriarcalismo
Feb 13th
Phillip Longman trata da volta do patriarcalismo e outros valores tradicionais como uma tendência de curto e médio prazo. Sua lógica se baseia numa premissa relativamente simples e perfeitamente observável: as diferenças entre as taxas de natalidade da chamada classe média urbana dos países desenvolvidos e das populações carentes e dos bolsões pobres dos países em desenvolvimento. Enquanto a classe média praticamente parou de ter filhos e cresce negativamente, temos nas famílias mais religiosas e conservadoras há uma explosão demográfica. Isso é observável em São Paulo: na cidade, o crescimento vegetativo é negativo, enquanto nas cidades ao redor da cidade, o crescimento chega até 4% ao ano, e não causado pela migração, mas por natalidade mesmo. More >
Proposta de sociologia do cigarro II
Jan 15th
Volto ao tema da sociologia do cigarro, minha tentativa barata de teorizar. É notável observar que o perfil típico do fumante “bacana” atual se encaixa no perfil “alternativo/moderno” dos jovens. Sim, é verdade que os adolescentes e pobres perfazem boa parte do público fumante, em especial das marcas mais populares, mas são os “modernos” que dão a atual cara de glamour e “descolamento” ao produto, na falta dos galãs de Hollywood.
Mas mais engraçado que isso é que se trata de um público geralmente anti-corporações, anti-marcas, anti-capitalista, “sou de esquerda” etc, sendo que o cigarro é um dos produtos mais prejudiciais a populações locais (o tabaco destrói o solo), e faz parte de um setor dominado por grandes conglomerados multi-nacionais ligados às práticas comerciais mais desleais e anti-éticas. São contribuintes fervorosos dos Republicanos, ou seja, fumou um cigarro, está dando dinheiro para George Bush. Não é irônico?
Ou ser moderno é ser incoerente e incongruente, ou a posição política deste povo é apenas uma maneira de se conseguir sexo mais fácil, já que a esquerda parece ser mais liberal do que a direita neste tipo de assunto. Nada mais status quo, mais reacionário, portanto, do que fumar.
Isso sem falar no culto à maconha, outra praga que “moderno” ignora (ou melhor, finge ignorar) seus efeitos sociais e econômicos. Tema de um próximo texto.
Para começar 2007, um pouco de historia
Jan 9th
Bankers, Industrialists, and Their Cliques: Elite Networks in Mexico and Brazil during Early Industrialization
Authors: Aldo Musacchio and Ian Read
Abstract
The historiographies of Mexico and Brazil have implicitly stated that business networks were crucial for the initial industrialization of these two countries. Recently, differing visions on the importance of business networks have arisen. In the case of Mexico, the literature argues that entrepreneurs relied heavily on an informal institutional structure to obtain necessary resources and information. In contrast, the recent historiography of Brazil suggests that after 1890 the network of corporate relations became less important for entrepreneurs trying to obtain capital and concessions, once the institutions promoted financial markets and easy entry for new businesses. Did entrepreneurs in Brazil and Mexico organize their networks differently to deal with the different institutional settings? How can we compare the impact of the institutional structure of Mexico and Brazil on the networks of entrepreneurs and entrepreneurial finance in general? We explore these questions by looking at the networks of interlocking boards of directors of major joint stock companies in Brazil and Mexico in 1909. We test whether in Mexico businessmen relied more on networks and other informal arrangements to do business than in Brazil. In Brazil, we expect to find less reliance of businesses on networks given that there was a more sophisticated system of formal institutions to mediate transactions and obtain capital and information. Our hypothesis is confirmed by three related results: 1) the total number of connections (i.e., the density of the network) was higher in Mexico than Brazil; 2) In Mexico there was one dense core network, while in Brazil we find fairly dispersed clusters of corporate board interlocks; and most importantly, 3) politicians played a more important role in the Mexican network of corporate directors than their counterparts in Brazil. Interestingly, even though Brazil and Mexico relied on very different institutional structures, both countries grew at similar rates of growth between 1890 and 1913. However, the dense and exclusive Mexican network might have ended up increasing the social and political tensions that led to the Mexican Revolution (1910-1920).
Por que o brasileiro é tão musical mas não entende nada de música?
Nov 27th
Pergunte aos fãs de reggae se eles conhecem os Upsetters ou Lee “Scratch” Perry. Ou se eles saber o que é rocksteady ou a diferença do dub para o reggae. Ou até mesmo questionar porque não tem contrabaixo no reggae brasileiro. Provavelmente, receberá uma cara de “o que ele tá falando???” de presente. Claro, pode ser o grau de cannabis na cabeça do sujeito, mas digamos que não seja. E por que isso nos interessa neste blog? Ora, o reggae é só um exemplo: a superficialidade do conhecimento dos conhecedores no Brasil é que é o fator crucial deste artigo…
Não há aparentemente nenhuma razão que impeça os fãs de reggae de buscarem conhecer mais o ritmo que admiram. Mas eles se parecem satisfeitos com a repetição ad nauseum dos mesmos sucessos de sempre. O mesmo acontece no rock, no jazz, no blues e em tudo relacionado à cultura no Brasil. Claro, há sempre uma ceninha de novidades aqui e acolá, mas em geral, tais novidades são apenas mímicas de cenas estrangeiras já perfeitamente diluídas ou então regurgitação dos grandes bastiões da MPB, aquela com M maiúsculo, de ME ESQUEÇAM UM POUCO!
More >As lógicas da arte musical
Oct 11th
O sociólogo Simon Frith apresenta sua tese no fabuloso Performing Rites (sem tradução no Brasil). Para ele, diferentemente do que prega Adorno, a música popular tem tanto valor quanto a música erudita/experimental, pois elas possuem lógicas distintas e não-comparáveis. Frith alega que a música popular facilita diálogos, abordando a música do ponto de vista sociológico-prático do tema.
Vou fazer um resumo muito tosco agora. Peço perdão a ele. Simon diz que a lógica da folk music (e que, de certa forma, é a mesma de qualquer música de raiz, seja o samba, o hip hop ou o blues) está na pureza, na pregação social da proteção. A música erudita tem uma lógica técnica, de depuração, ancorada num discurso social de música feita com o cérebro. Já a música popular não tem nem o compromisso com a técnica, nem com a pureza, mas mais com discursos sociais. É por isso que, se um amigo seu vier com o papo de que o jazz e a MPB são estilos de música superiores ao rock, você esfrega na cara dele que a lógica dele é diferente da sua.
Afinal, ricos têm rancor dos pobres ou dos outros ricos?
Sep 5th
[ricos] gostam da inveja dos pobres.
... e que, por isso, deveriam se cobrar impostos maiores sobre o consumo direcionado para provocar este tipo de inveja social (para quem conhece Veblen, o chamado consumo conspícuo).
Estou aqui me alinhando ao que diz Tyler Cowen. Para ele, mesmo que este interesse por status exista, para um rico, é muito mais excitante ser invejado por outro rico. Ricos que gostam de se sentir invejados pelos pobres são vistos como perdedores pelos demais ricos. Ao mesmo tempo, pobres nutririam mais inveja do coreano que se deu bem na vendinha da esquina do que com a Paris Hilton. O coreano, portanto, teria um consumo conspícuo igualmente alto para o pobre, e de certa forma, muito mais aparente e provocativo para sua classe.
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Proposta de Sociologia do Cigarro I
Aug 16th
Quando estive nos EUA e França, em duas oportunidades distintas, uma das situações que mais me chamavam a atenção era a postura dos fumantes em situações de convívio social. Em miúdos: o que há de comportamento sociológico no simples ato de se fumar em público?
A primeira coisa que me despertou curiosidade era o fato que a ampla maioria dos fumantes mantinham seus cigarros próximos à boca, ou muito colado ao rosto. Parecia haver um interesse em que o cigarro estivesse circunscrito ao espaço individual, de forma a não perturbar a pessoa ao lado – que poderia não ser fumante. Outra sensação era a de que o ato de fumar era um momento de prazer puramente pessoal, uma ação que independia relativamente dos outros. Mesmo a fumaça era solta devagarzinho, em cima de si próprio, sem aquela coisa de assoprar jatos à distância.
Já no Brasil, o que mais se vê é o fumante abrindo os braços largos e literalmente jogando o cigarro na cara da pessoa que estiver atrás ou do lado, especialmente se esta não for conhecida. Ao soltar a fumaça, a fumante ou joga tudo para trás, ou para cima, ou para o lado. Ou seja, o fumar no Brasil parece ser um ato muito menos de prazer pessoal, e mais de afeto social e que reforça o caráter egoísta do brasileiro médio.
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