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Capitalismo à Brasileira I
Aug 3rd
BNDES entra na Springs/CoteminasEm meio à turbulência dos mercados, a Springs Global Participações, do vice-presidente José Alencar, decidiu promover uma oferta pública de ações. Vai levantar 600 milhões de reais. Até aí, beleza. O processo está inclusive registrado na CVM. A novidade: a empresa terá a ajuda do governo, via BNDES.
A Springs Global Participações é um gigante lucrativo e globalizado. Trata-se da holding que detém o controle da Coteminas, maior indústria têxtil do Brasil. E é dona também da Springs, a maior fabricante de produtos de cama e mesa dos EUA. A decisão de fazer a oferta pública foi de Josué Christiano Gomes da Silva, filho de Alencar e executivo número 1 da Springs/Coteminas. O Credit Suisse está liderando a operação.
Mas o negócio não saiu fácil. Só conseguiu ser concretizado depois que o Credit Suisse convenceu o BNDES a comprar quase 150 milhões de reais em papéis da empresa. Quem conhece o mercado acredita que estes 25% da operação comprados pelo BNDES terão que ficar encarteirados nos cofres públicos por um bom tempo.
A lista de compradores também incluiu um fundo estrangeiro. O negócio está para ser anunciado oficialmente nos próximos dias.
Essa é uma das características do capitalismo brasileiro: os negócios de peso sempre tem o dedo do governo, não como fomentador, mas como tomador do risco. É o mesmo conceito da Lei Rouanet, que dá R$ 1 milhão para uma cantora meia-boca, voltada para um público abonado (Vanessa da Mata) gravar um DVD.
O lucro é deles, o prejuízo é nosso.
Como adendo à ultima nota
Jun 19th
Porque a ida da classe média aos postos públicos revela um desastre nacional
Jun 18th
A Veja dessa semana derrapa feio numa matéria que mostra a fuga dos talentos e da classe média bem formada para os empregos públicos. Ela falha por abordar efeitos colaterais como se fossem os efeitos principais, esquecendo-se de buscar a raiz da fuga.
Segundo a revista, por meio da valorização dos salários das “boas” carreiras de governo (e aí a revista já mistura empresas estatais com empresas públicas, o que distorce o resultado), pela possibilidade de “altos salários” (se alguém achar que 2500 dólares para tomar pipoco na rua é bom salário), pela estabilidade e pelas “perspectivas de crescimento na carreira” (aqui novamente se distorcendo o conceito de empresa pública e estatal, onde a “perspectiva” faz mais sentido).
Assusta que a revista tenha simplesmente se esquecido do brutal desaparecimento dos empregos qualificados, da precarização do trabalho fortalecida nesse que é o pior governo da história em termos estruturais e institucionais (isso sem falar na corrupção e decadência moral, que daria outro livro). Só para dar um exemplo, copio esse trecho do texto de José Paulo Kupfer, do ótimo nomínimo, lembrando que a indústria de transformação é aquela que gera empregos qualificados, bem pagos e que movimenta as principais cadeias produtivas longas (em bom português, geram empregos e renda):
“Segundo dados publicados no “Estado de S. Paulo”, neste domingo, a indústria de transformação cresce abaixo do PIB desde 2004 e, de acordo com dados publicados pela “Folha de S. Paulo”, neste domingo, vem perdendo densidade tecnológica. A indústria de transformação representa hoje somente 18% do PIB e seus setores de ponta encolheram 16%, nos últimos dez anos (hoje 70% da indústria fabrica produtos de baixa ou média-baixa tecnologia).”
Isso é um verdadeiro desastre, prova de erros inacreditáveis de prioridade. O pior é que a reportagem de Veja deveria ter servido de alerta, e não ter falado como prova de que estamos no caminho certo. Se alguém me provar que algum dia algum país evoluiu ao levar toda sua massa crítica de trabalho formado para o governo e não para o setor privado, que use esse espaço para me desacreditar. Exceto por pesquisadores acadêmicos e pessoas com vocação para o trabalho público, o restante deveria estar fora do governo, pesquisando, investindo em novos produtos, novas tecnologias, novos modelos de gestão… Mas não: o Brasil é uma jabuticaba podre, copiando o que há de pior (modelo italiano de corrupção) e inovando no que não é para inovar (a volta da monocultura)...
Para começar 2007, um pouco de historia
Jan 9th
Bankers, Industrialists, and Their Cliques: Elite Networks in Mexico and Brazil during Early Industrialization
Authors: Aldo Musacchio and Ian Read
Abstract
The historiographies of Mexico and Brazil have implicitly stated that business networks were crucial for the initial industrialization of these two countries. Recently, differing visions on the importance of business networks have arisen. In the case of Mexico, the literature argues that entrepreneurs relied heavily on an informal institutional structure to obtain necessary resources and information. In contrast, the recent historiography of Brazil suggests that after 1890 the network of corporate relations became less important for entrepreneurs trying to obtain capital and concessions, once the institutions promoted financial markets and easy entry for new businesses. Did entrepreneurs in Brazil and Mexico organize their networks differently to deal with the different institutional settings? How can we compare the impact of the institutional structure of Mexico and Brazil on the networks of entrepreneurs and entrepreneurial finance in general? We explore these questions by looking at the networks of interlocking boards of directors of major joint stock companies in Brazil and Mexico in 1909. We test whether in Mexico businessmen relied more on networks and other informal arrangements to do business than in Brazil. In Brazil, we expect to find less reliance of businesses on networks given that there was a more sophisticated system of formal institutions to mediate transactions and obtain capital and information. Our hypothesis is confirmed by three related results: 1) the total number of connections (i.e., the density of the network) was higher in Mexico than Brazil; 2) In Mexico there was one dense core network, while in Brazil we find fairly dispersed clusters of corporate board interlocks; and most importantly, 3) politicians played a more important role in the Mexican network of corporate directors than their counterparts in Brazil. Interestingly, even though Brazil and Mexico relied on very different institutional structures, both countries grew at similar rates of growth between 1890 and 1913. However, the dense and exclusive Mexican network might have ended up increasing the social and political tensions that led to the Mexican Revolution (1910-1920).
Preço sugerido nas embalagens
Nov 29th
Até aí, bacana. Eis que, na própria lata, surge este tag amarelão imenso escrito: Preço Sugerido=R$1. Ao lado, havia uma caixa de Goiabinha da Bauducco (um produtaço, tanto conceitualmente, como em termos de comunicação, a cargo da AlmapBBDO – que merecia prêmio Effie). Na caixa, igualmente um tag de preço sugerido: R$0,50.
Duas coisas chamam a atenção: primeiro – isso seria impensável antes do Plano Real (sempre bom lembrar). Segundo – trata-se de mais uma cartada da indústria para evitar a guerra de preços no varejão, ainda mais com produtos ultra-populares como ambos citados. Veremos no que isso dará.
