Todo mundo é socialmente responsável, na comunicação – III
Um trabalho do Prof André Urdan, da EAESP/FGV, publicada na Revista de Administração Contemporânea da USP em 2001, procurou responder a uma simples pergunta: afinal, os consumidores recompensam o comportamento ético? Os resultados foram bem claros: não. O brasileiro acha que as empresas devem, sim, cumprir as leis, acham que devem se preocupar com fornecedores, garantindo que eles cumpram as leis mas… na hora da ação, o brasileiro compra pirataria, compra a marca mais barata ou mesmo marcas cujo histórico seja ruim, mas que tenha mais status. Este é o primeiro limite da responsabilidade social: ele só passa a fazer efeito para o consumidor quando este se tornar cidadão. E, de fato, temos visto alguns avanços (Lei do Consumidor) mas muitos retrocessos (Justiça lenta, aumento de impostos indiretos, Bolsa-Esmola) neste sentido. E por que ser cidadão é importante para que responsabilidade social seja um instrumento de marketing? Porque responsabilidade social é baseado no conceito de accountability: ou seja, alguém é responsável por algo. Se o consumidor não se sente responsável por comprar produtos “éticos”, a pirâmide inteira desmorona, e a tal responsabilidade fica simplesmente a critério da empresa e seus gestores, sem qualquer efeito prático de accountability, já que a cadeia de responsabilidades tem que ser completa: governo, empresas, funcionários e consumidores.
É por isso que hoje em dia campanhas de responsabilidade social, com fins mercadológicos, tem efeito praticamente zero no Brasil. Sem desenvolvimento de um conceito mais forte de cidadania, onde o accountability (responsabilidade) de cada uma das partes fique clara e seja realmente valorizada por cada ente, não adiantará nada ver a Petrobrás (uma petrolífera que compra de empresas acusadas de propinagem na época do escândalo do Silvinho Land Rover Pereira) anunciar ser uma empresa com “responsabilidade social”. Ou a Usiminas falar que seu investimento em cultura é responsabilidade social, quando de fato eles usam dinheiro público de incentivo fiscal para promover eventos (o que não tem nada a ver com responsabilidade social, já que é um dinheiro que não é deles).
| Print article | This entry was posted by Ricardo on June 28, 2008 at 7:40 pm, and is filed under Comunicação, Sociologia. Follow any responses to this post through RSS 2.0. You can leave a response or trackback from your own site. |


about 3 years ago
Acho que tem uma lógica bem simples. O discurso vazio nao importa para quem tem cabeça vazia. E para quem não tem, ele não cola.
about 3 years ago
Cava,
Pois foi o que disse. Não quero dizer que responsabilidade social não importa e que não há pessoas (no Brasil) que não levem isto a sério. Mas que enquanto (talvez) as empresas sérias não se preocuparem em mostrar aos cidadãos COMO entenderem responsabilidade social e o que cada cidadão pode fazer por ela, não adianta muito ser “mais uma empresa socialmente responsável” neste mar de mesmice.
Toda empresa mostra um bando de criança pulando, uns dançarinos de teatro, umas pinturas loucas e um tiozinho plantando uma árvore e isto é “responsabilidade social”. Quem ganha com isso? O mídia.