Simon Schartzmann é um sociólogo diferenciado no Brasil. Com simplicidade e sem precisar jogar para a torcida, consegue em poucas linhas resumir bem o momento desastroso pelo qual passamos, especialmente com a ascensão de Lula I, o Apedeuta. Falando sobre o relançamento, em versão eletrônica do clássico Bases do Autoritarismo Brasileiro (1988), ele comenta:

O livro mantém o texto integral da edição de 1988, com uma pequena nova apresentação, aonde observo que, quase vinte anos percorridos, uma das principais proposições do livro pareceria ter se cumprido. [...] No prefácio de 1988 eu dizia que “foi de São Paulo que surgiram as pressões sociais mais fortes contra os poderes concentrados no Governo federal, tanto por parte de grupos empresariais quanto pelo movimento sindical organizado; é em São Paulo, em última análise, que se joga a possibilidade de constituição de um sistema político mais aberto e estável, que possa dar ao processo de abertura uma base mais permanente”.

A partir de 1995, com os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva e as candidaturas presidenciais de José Serra e Geraldo Alckmin, o centro de gravidade da política brasileira se transfere para São Paulo. Nas eleições de 1994 e 1998, a oposição entre PSDB e PT se aproximou bastante do que poderíamos descrever como a disputa entre dois partidos políticos modernos, um com mais apoio nas classes médias e no empresariado, outro com mais apoio nos sindicatos e nos movimentos sociais independentes. Desde então, no entanto, os partidos políticos perderam substância, o clientelismo se ampliou, o sindicalismo e os movimentos socais independentes desapareceram ou foram cooptados, e boa parte das elites patrimonialistas mantiveram seu poder de sempre, agora como meras cleptocracias. O período “moderno” da política brasileira teve fôlego curto, e política antiga está demonstrando ter uma enorme capacidade de sobrevivência e metamorfose. Fica para os eleitores a pergunta de por quê isto é assim, e o que podemos esperar para o futuro.

Se fosse responder a pergunta dele, seria muito pessimista. Há um claro apoio, ainda que mitigado, pela manutenção dessa estrutura, aliás, muito mais resilente do que parecia. O mais interessante é que ela cooptava – desde o princípio – os mais ferrenhos auto-denominados progressistas. Qual é a agenda dessas pessoas? Estatizar (ou seja, manter tudo do jeito que está), burocratizar (idem – o que permite vender vantagens, sempre), re-estatizar (sempre se encontra um motivo) e cantar as glórias de um país injusto. Faz bem à alma. É a mesma elite que acha que a liberação das drogas é uma evolução – claro, a saúde pública que se lasque com os junkies que virão. O importante é que o tráfico de drogas passaria a não ser mais responsabilidade deles. Aliás, a irresponsabilidade é algo imbricado no brasileiro.

Basta ver o maciço apoio a medidas claramente retrógradas e autoritárias, como a manutenção de arcabouços como FGTS e Vale Refeição – duas idéias típicas de povos que se entendem incapazes de viver por conta própria. Por que não extingui-los e transferir tal renda diretamente ao salário da pessoa? Ou seja, tudo muda para nada mudar. Basta ver que os homens fortes da nação são Zé Sarney, Lula, Ciro Gomes, Jader Barbalho… Os famosos filhotes da ditadura e membros das elites patrimonialistas nordestinas (sim, Lula é filhote da ditadura, pois pelego criado por Golbery). E isso é visto como “nunca antes nesse país” pela esquerda Chivas e a direita “pogressista” (“pelo menos a economia vai bem…”). Nada mais arcaico do que esse cenário.