AdaptaçãoLeio na Folha de São Paulo que a Sony BMG decidiu abrir uma nova empresa, chamada Day1, que será uma espécie de gerenciadora de carreira dos artistas do selo. Isso aparece como uma grande novidade, o que na verdade não é. Novidade era em 2000, quando o selo Discipline Global Mobile resolveu adotar um sistema inovador de gerenciamento de carreira, que contemplava não somente o agenciamento do artista, mas tudo: desde as gravações até a venda de merchandise – com uma diferença: era tudo no risco, para ambos os lados. Ou seja, era como uma “venture capital” para artistas – diferentemente do modelo ainda vigente, onde a gravadora “adianta” o investimento, jogando o risco no artista e detendo todos os direitos depois. O modelo deles evoluiu em direção à distribuição via BitTorrent de álbuns ao vivo (algo que o Pearl Jam e o Wilco passaram a fazer depois).

O que a SonyBMG estão fazendo é simplesmente a verticalização do negócio fonográfico: eles sabem que hoje o dinheiro está na ponta de baixo, e não mais na distribuição (a Apple e a Amazon tendem a dominar a partir de agora, agregando os serviços que as gravadoras não quiseram oferecer). Essa verticalização nada mais é do que repeteco do que aconteceu na década de 50, como mostrou Charles Perrow no excepcional Complex Organizations, um livro de ensaios que, em um mísero capítulo, praticamente conta tudo que você precisaria entender sobre o mercado fonográfico e o mundo das indústrias criativas.


Vale lembrar que, no início, a indústria fonográfica foi bancada pelas produtoras de aparelhos fonográficos (não à toa, a origem de todas as majors era no hardware – RCA, Polygram/Philips…). Ou seja, a produção estava a cabo de produtoras “independentes” mas, por conta do alto custo de se produzir uma gravação, eram subsidiárias das mesmas. Nos anos 50, a queda do custo de produção (um fator sempre ignorado pela mídia quando fala no cenário atual) fez com que pipocassem selos e produtoras locais. As rádios locais eram ótimos veículos de divulgação (não existiam as redes ainda), porque eram livres para escolher a base de sua programação. Isso começou a minar as grandes gravadoras, que operavam no sistema que Ruy Castro (a múmia) achava o máximo: centralizado (Brill Building), com clara separação de tarefas entre produtor, arranjador, compositor, cantor e músicos de apoio. As pequenas eram guerrilheiras: estúdios de fundo de quintal, gravando material de “minorias” (negros, caipiras, folkies) onde o sujeito era dono do estúdio, produtor e o músico era o próprio arranjador, cantor etc. E isso estava tomando mercado: afinal, nos anos 50, a classe média surge com mais força nos EUA, via ascensão das médias cidades e minorias.

Tá, e o que isso tem a ver? Tem a ver que a solução das grandes gravadoras foi simples: comprem todas e formem catálogo. Selos passaram a ser incorporados como loucos mas com suas estruturas geralmente mantidas – o que significava que as gravadoras se adaptaram sim aos novos tempos de então. Nada indica que não será assim novamente, ainda mais num mercado cada vez mais dependente de marketing para se tornar viável. É, viável, pois não há músico na atualidade que viva bem só de divulgar faixinha na internet.

Alguma contra-idéia?

————————Now playing: Neutral Milk Hotel – Song Against Sex

via FoxyTunes