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O problema da agenda da Esquerda

Ricardo | June 29, 2007

Se voc nunca esteve aqui, voc talvez queira assinar esse blog via RSS feed. Obrigado pela visita!

Sou obrigado a colocar este trecho do ótimo post do Reinaldo Azevedo, que acaba jogando luz sobre o problema de agenda da esquerda brasileira atual:

A esquerda é, hoje em dia, essa coisa frívola. Não pensa mais em termos de luta de classes — o que não quer dizer que seja, por isso, menos nefasta. Não é. A miséria é sua clientela. Vejam lá. As ONGs sobem o morro, mas não para fazer proselitismo, para “libertar” os oprimidos. Isso dá trabalho e não rende dinheiro. Fazem convênios com associações culturais ou de moradores as mais suspeitas para ensinar aos meninos dança, funk, malabares sei lá o quê. As pessoas são estimuladas a desenvolver a cultura da miséria.

A regra é o conformismo. Um tanto grosseiramente, diria que um liberal estimularia o pobre a deixar de ser pobre. Como? Oferecendo-lhe as bases estruturais mínimas para isso: uma escola decente, por exemplo. A esquerda tradicional procuraria organizar a favela, no limite utópico, para o dia do levante; enquanto ele não chega, para desmoralizar o poder burguês. Essa nova esquerda do miolo mole é um tanto diferente: ela luta para que os “valores!” gerados na pobreza sejam uma alternativa à cultura dominante. Vejam o caso dos bailes funk. Cada barraco do Rio sabe que eles são o meio mais eficaz de aliciamento dos jovens para o narcotráfico, que os promove. Tim Lopes morreu investigando o caso. Não obstante, os “intelectuais” dessa “cultura” estão na TV, exercitando a sua glossolalia. Outro dia, um Schopenhauer do pedaço disse na Universidade de Brasília — vi na TV Câmara — que a sua turma de “artistas” não condena o traficante, mas o tráfico. Entendi.


O que me parece mais incrível é que boa parte dessas ONGs realmente vivem de manter a miséria em padrões ditos tolerantes. Alguém conhece algum caso em que um trabalho de ONG numa favela carioca tenha dado resultados que não tivessem sido mais tráfico de drogas, mais violência e mais miséria? Simples: nenhuma delas trabalha com metas que incluam o Estado. Nada do Estado reocupando o espaço público. A comunidade deve se auto-gerir (lógico, sob o jugo das armas dos traficantes), deve-se negociar com traficantes para se ter acesso ao local… Abre-se mão de tudo, para se obter nada como retorno, só um coraçãozinho mais tranquilo e um pouco de grana na ONG.

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Como adendo à ultima nota

Ricardo | June 19, 2007

... o ministro Paulo Bernardo, do “desPlanejamento”, na verdade um capacho do José Dirceu, acaba de dar aumentos de 30% a 137% aos empregados lotados em cargos comissionados no governo federal (na grande maioria, petistas nada técnicos, mas isso não vem ao caso). Sabe qual a justificativa? Equiparação com os salários da iniciativa privada. Ué, mas a Veja não havia dito o contrário?

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Porque a ida da classe média aos postos públicos revela um desastre nacional

Ricardo | June 18, 2007

VejaA Veja dessa semana derrapa feio numa matéria que mostra a fuga dos talentos e da classe média bem formada para os empregos públicos. Ela falha por abordar efeitos colaterais como se fossem os efeitos principais, esquecendo-se de buscar a raiz da fuga.

Segundo a revista, por meio da valorização dos salários das “boas” carreiras de governo (e aí a revista já mistura empresas estatais com empresas públicas, o que distorce o resultado), pela possibilidade de “altos salários” (se alguém achar que 2500 dólares para tomar pipoco na rua é bom salário), pela estabilidade e pelas “perspectivas de crescimento na carreira” (aqui novamente se distorcendo o conceito de empresa pública e estatal, onde a “perspectiva” faz mais sentido).

Assusta que a revista tenha simplesmente se esquecido do brutal desaparecimento dos empregos qualificados, da precarização do trabalho fortalecida nesse que é o pior governo da história em termos estruturais e institucionais (isso sem falar na corrupção e decadência moral, que daria outro livro). Só para dar um exemplo, copio esse trecho do texto de José Paulo Kupfer, do ótimo nomínimo, lembrando que a indústria de transformação é aquela que gera empregos qualificados, bem pagos e que movimenta as principais cadeias produtivas longas (em bom português, geram empregos e renda):

“Segundo dados publicados no “Estado de S. Paulo”, neste domingo, a indústria de transformação cresce abaixo do PIB desde 2004 e, de acordo com dados publicados pela “Folha de S. Paulo”, neste domingo, vem perdendo densidade tecnológica. A indústria de transformação representa hoje somente 18% do PIB e seus setores de ponta encolheram 16%, nos últimos dez anos (hoje 70% da indústria fabrica produtos de baixa ou média-baixa tecnologia).”

Isso é um verdadeiro desastre, prova de erros inacreditáveis de prioridade. O pior é que a reportagem de Veja deveria ter servido de alerta, e não ter falado como prova de que estamos no caminho certo. Se alguém me provar que algum dia algum país evoluiu ao levar toda sua massa crítica de trabalho formado para o governo e não para o setor privado, que use esse espaço para me desacreditar. Exceto por pesquisadores acadêmicos e pessoas com vocação para o trabalho público, o restante deveria estar fora do governo, pesquisando, investindo em novos produtos, novas tecnologias, novos modelos de gestão… Mas não: o Brasil é uma jabuticaba podre, copiando o que há de pior (modelo italiano de corrupção) e inovando no que não é para inovar (a volta da monocultura)...

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As revistas de luxo à moda brasileira

Ricardo | June 11, 2007

Trabalhar numa agência faz com que você observe algumas coisas bizarras de nosso universo brazuca. Uma delas é a quantidade de revistas disputando o tal mercado AAAAA+. Da Abril a editoras minúsculas, com títulos esdrúxulos como a V (revista de luxo da Volkswagen??? Quem merece?), todas querem atuar nesse mercado mais do que saturado. O pior é que praticamente nenhuma se salva em conteúdo: trata-se de uma versão piorada e afetada dos catálogos Avon, só que mais carregado de zeros.

Sei, da boca pequena, que boa parte delas só existe para esquentar peças fantasmas das agências nacionais, uma situação surrereal que só no Brasil mesmo. Ou seja, criam-se veículos sem leitores para veicular peças inexistentes para um público que não existe, já que não é uma revista para ser lida etc…

E as poucas para serem lidas, como a Bravo, são tão indigentes em termos de cultura que ainda acham Marisa Monte relevante (só se for como marketeira…).

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Como se forma a opinião?

Ricardo | June 1, 2007

Um estudo conjunto de 5 universidades americanas revelou uma situação muito interessante sobre os poderes da comunicação e das falsas impressões. Segundo seus resultados, uma opinião repetida pela mesma pessoa diversas vezes é entendida pelo receptor como prova de opinião popular.

Os efeitos desse conhecimento são importantes para se compreender como certas “verdades” se estabelecem com facilidade, simplesmente por serem repetidas por algumas pessoas como se não houvessem interesses próprios em jogo. Um dos meus discursos favoritos é o da tal “economia”. É um tal de “a economia vai bem” pra cá, “o mercado está contente” para lá, como se fosse uma entidade externa, quase totalmente representativa do todo. Basta com que meia dúzia de luminares (tipo Delfim Netto e Mailson da Nóbrega, cujas obras falam por si próprias) repitam esse mantra na rádio e pronto: está formada a opinião geral da nação. Cabe lembrar que o Brasil é o único país que conheço onde mercado significa bancos, e não mercado de consumo. E economia significa taxa de juros e não uma forma de se buscar o bem-estar da população como um todo. Um resumo do artigo original, que nada tem a ver com o que comentei nesse parágrafo, se encontra aqui.

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