A venda de episódios recém-saídos do seriado Lost nas barraquinhas dos camelôs, já devidamente legendadas e empacotadas para consumo local, é sintomático de um fenômeno cujos craquelamentos se vêem em outras partes: a destruição do modelo síncrono da indústria audiovisual.

Explico. A indústria cinematográfica, há muito tempo, baseia sua receita não somente na ida dos fãs ao cinema, mas da receita advinda da venda de direitos para home video (VHS e DVD), Pay-per-view, TV a Cabo, TV aberta e finalmente hoje, iPods. Mas esta receita era diluída no tempo: ou seja, primeiro se rentabilizava o cinema. Passados alguns meses, e os atrasos no mercado internacional, passa-se ao outro naco da cadeia (DVD) e assim por diante.

Mas este modelo está claramente se partindo. A digitalização do conteúdo audiovisual, combinado com a altíssima velocidade de transferência de dados que um mero moleque consegue na própria casa, acaba tornando virtualmente impossível o controle da velocidade de transmissão das informações. Um episódio gravado em TiVo pode em questão de horas estar plenamente disponível na casa de um jovem de Calcutá.

E daí? E daí muita coisa. As salas de cinema terão que reinventar seu modelo, já que os lares cada vez mais dispõem de um equipamento virtualmente igual ao do cinema em casa. Uma solução interessante parece ser a de criar eventos onde o filme é apenas parte da diversão, como o Noitão do HSBC Belas Artes (sempre lotado) ou o clone deste, no Cine Unibanco. A rentabilidade da indústria poderá passar por um choque, com as receitas mais comprimidas no tempo (já que DVD, cinema e TV a Cabo provavelmente sairão ao mesmo tempo, como foi o caso do projeto Bubble, de Steven Soderbergh).

Então, para onde vai a indústria cinematográfica?