Proposta de Sociologia do Cigarro I
Quando estive nos EUA e França, em duas oportunidades distintas, uma das situações que mais me chamavam a atenção era a postura dos fumantes em situações de convÃvio social. Em miúdos: o que há de comportamento sociológico no simples ato de se fumar em público?
A primeira coisa que me despertou curiosidade era o fato que a ampla maioria dos fumantes mantinham seus cigarros próximos à boca, ou muito colado ao rosto. Parecia haver um interesse em que o cigarro estivesse circunscrito ao espaço individual, de forma a não perturbar a pessoa ao lado – que poderia não ser fumante. Outra sensação era a de que o ato de fumar era um momento de prazer puramente pessoal, uma ação que independia relativamente dos outros. Mesmo a fumaça era solta devagarzinho, em cima de si próprio, sem aquela coisa de assoprar jatos à distância.
Já no Brasil, o que mais se vê é o fumante abrindo os braços largos e literalmente jogando o cigarro na cara da pessoa que estiver atrás ou do lado, especialmente se esta não for conhecida. Ao soltar a fumaça, a fumante ou joga tudo para trás, ou para cima, ou para o lado. Ou seja, o fumar no Brasil parece ser um ato muito menos de prazer pessoal, e mais de afeto social e que reforça o caráter egoÃsta do brasileiro médio.
O brasileiro é um povo egoÃsta e tacanho, e nada melhor que hábitos sociais não-pensados para reforçar esta minha crença (que, aliás, está fortemente enviesada pela leitura de Carnavais, Malandros e Heróis, do Roberto DaMatta). É egoÃsta por que todos os dejetos (o indesejado) do fumar são lançados nos outros, naqueles que não tenho ligação. Minha ligação com o ambiente vai no máximo até meus amigos e familiares – o restante… ora! Todo mundo faz isso3! Se está se incomodando, que se retire, né? O brasileiro não aceita a idéia de que a liberdade dele vai no máximo até onde se encontra a do outro, já que o outro nunca entrou nesta equação.
O tacanho está na visão de curto prazo investida neste tipo de ação. Se o fumante quer ter seu prazer sem ser questionado por suas escolhas, sua atitude deveria ser a de manter este prazer o mais próximo possÃvel de si, incomodando o menos possÃvel o outro. Aqui, não: faz-se o possÃvel para mostrar ao mundo que você é um fumante, e que você é super descolado por isso e que, portanto, está se lixando para o resto do mundo. É aqui que vejo os mundos sociais brasileiro e francês, por exemplo, de modo mais gritantemente diferentes: o prazer individual do fumar, na França, é um ato realmente individual – o prazer do fumar por fumar – e individualista na tradição mais iluminista possÃvel – em que se respeita o outro. Não parece haver nenhuma ostentação no ato em si1.
Qual a importância deste olhar para se entender o que faz do Brasil, Brasil2? É aqui que fica claro como as noções de status e poder agem de forma diferente aqui em relação a outros paÃses. Somos ainda uma sociedade despreparada para o convÃvio com o outro (a despeito da “propaganda” contrária), e, ao mesmo tempo, onde os controles sociais são mais sutis e, por isso, até mais eficientes – pois são capazes de transformar um tipo de ação social abjeta em meio de se exercer poder.
- (em tempo: é fato que o ato de fumar, especialmente na França, tem um fortÃssimo caráter polÃtico – a esquerda fuma, e a direita não. Mas não se trata desta faceta, mas daquela ligada à prática nos bares e restaurantes.)
- DaMatta é muito mais otimista do que eu.
- “Todo mundo faz isso” é trademark de Lula e do PT. Usado sem permissão, claro. Afinal, todo mundo faz isso.
| Print article | This entry was posted by Ricardo on August 16, 2006 at 6:25 pm, and is filed under Sociologia. Follow any responses to this post through RSS 2.0. You can leave a response or trackback from your own site. |

